o luto

Despedida

Talvez o luto não seja apenas aceitar que uma pessoa deixou de fazer parte da nossa vida. Às vezes fazemos o luto de uma amizade, de uma fase, de uma versão de nós, de um lugar que alguém ocupava dentro da nossa história ou até daquilo que aquela relação despertava em nós.

Talvez seja por isso que este luto me esteja a custar tanto.

Porque não sei se estou a fazer o luto dele ou de tudo aquilo que existia em mim quando ele fazia parte da minha vida.

Talvez ele tenha sido uma ponte.

E talvez seja por isso que me custe tanto.

Porque, quando penso nele, não penso só nele.

Penso na minha adolescência.
Penso na minha chegada a Lisboa.
Penso no Algarve.
Penso em momentos em que estava sozinha e ele, mesmo sem participar muito, fazia parte daquele momento.

Penso na escrita.

Nos poemas.

Na música.

Naquela minha forma de me entregar aos momentos e às pessoas, de sentir as coisas profundamente e de querer falar sobre elas até perceber o que estou a sentir.

E talvez tenha sido isso que ele representou para mim.

Uma ponte para uma parte minha.

E se calhar é por isso que tenho tanta dificuldade em sair do corredor.

Porque parece que, se eu deixar de olhar para ele, também vou deixar para trás essa parte de mim.

Mas talvez não.

Talvez eu esteja a confundir a ponte com o lugar onde cheguei.

Ele esteve lá.

Mas aquilo que encontrei em mim não era dele.

Era meu.

Ele foi testemunha de uma parte da minha história, mas não é dono dela.

E acho que esta é uma das coisas que mais preciso de aprender agora.

Que posso guardar as memórias sem precisar de guardar a pessoa no mesmo lugar.

Que posso reconhecer que houve coisas bonitas sem ter de negar aquilo que me magoou.

Que posso aceitar que aquela amizade acabou sem transformar tudo o que vivi numa mentira.

E talvez também tenha de aceitar que posso nunca saber exatamente o que ele sentiu, o que pensou ou porque fez determinadas coisas.

E isso ainda me custa.

Porque uma parte de mim continua a querer perceber.

Continua a querer aquela última conversa que explicaria tudo.

Mas talvez eu esteja a perceber que não preciso de saber tudo para conseguir seguir.

Talvez o que me falta não seja uma resposta dele.

Talvez me falte conseguir dar um lugar a tudo isto dentro de mim.

E talvez seja isso o luto.

Não apagar.

Não fingir que não aconteceu.

Não deixar de sentir.

Mas conseguir dizer:

“Sim, isto fez parte da minha vida.
Sim, foi importante para mim.
Sim, mudou alguma coisa em mim.
E mesmo assim, eu posso continuar.”

E há outra coisa que tenho percebido.

Eu não quero aprender a não precisar de ninguém.

Eu gosto das pessoas.

Preciso das pessoas.

Preciso de relação, de conversa, de espaço para falar e para sentir.

Preciso de curiosidade.

Preciso de sentir que existe espaço para mim dentro da relação e que não sou sempre eu a criar esse espaço para o outro.

Talvez eu tenha passado demasiado tempo a construir pontes.

A perceber o outro.

A fazer perguntas.

A abrir espaço.

E depois, quando chegava a minha vez, não havia espaço para mim.

E eu fechava.

Criava um muro.

Não porque deixasse de sentir, mas porque já não sabia onde colocar aquilo que sentia.

Talvez agora eu precise de aprender a não construir a ponte toda sozinha.

A deixar uma parte de mim aparecer e esperar.

Ver se o outro vem.

Ver se pergunta.

Ver se quer realmente conhecer.

Ver se consegue ficar.

Talvez seja assim que começo a escolher melhor quem pode conhecer a minha profundidade.

Não pela intensidade que sinto.

Mas pela capacidade que a pessoa demonstra de receber aquilo que lhe dou.

E talvez, aos poucos, eu consiga voltar àquela parte de mim que tenho medo de perder.

À escrita.

À música.

À poesia.

À profundidade.

Mas desta vez sem precisar que alguém esteja lá para me levar até ela.

Porque talvez ele tenha sido mesmo uma ponte.

E eu posso agradecer-lhe por ter feito parte desse caminho.

Mas não preciso de continuar a viver em cima da ponte.

Posso atravessar.

Posso seguir.

E talvez o mais bonito seja perceber que aquilo que encontrei do outro lado nunca foi ele.

Era eu.



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